segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
A cidade
domingo, 10 de agosto de 2008
A casa
terça-feira, 1 de julho de 2008
Fora da linha
Há em frente à casa, uma linha que passa, ou passam por ela. Uma linha que costura o imenso território nacional tinha mesmo que ser de aço, pousada sobre infinitos dormentes – teclas glissando à medida que o trem desliza. Nunca houve como não saber da sua existência, como ignorar a presença daqueles fios indestrutíveis, silenciosos, serpeando terra adentro. Antes mesmo de enxergar, eu já sabia, pois gritava sobre eles a máquina que passava arrastando todos os sons, se lançando com fúria na velocidade, na fome de devorar distâncias, de se jogar no mar, e fazendo soar, sozinha, o som da marcha de exércitos em guerra, seus tons, semiltons, megatons e toneladas. Pequeno, eu não conseguia conceber nada maior e nada menos livre do que o gigante barulhento. Eu corria depois para os trilhos, entre eles, a examiná-los com a inocência muda das crianças que num instante reconhecem a mágica. Como podiam aquelas linhas prender o monstro enorme? Eu observava, pelo quadrado recortado no portão. E quando eu mal sabia o significava me sustentar e caminhar com meus próprios pés, surgiu uma mão, logo seguida de outras, apontando meus pés e minhas pernas, destacando a abominação – meus pés pequenos (olhei pra baixo) e minhas pernas eram tortas e não me conduziriam a lugar algum, eu nunca seguiria um rumo, nunca encontraria caminho. Por nova resolução dos homens de branco, eu tinha que andar em passadas com os pés formando um ângulo aberto, oblíquo, mais aberto que pudesse – pés de palhaço, brincavam seriamente. Com o novo andar, tornei a subir naqueles trilhos, que eram guardados já por algumas gerações da minha família. Eu, desconfio, desde antes não me encaixava. Pois terá sido desse momento que me vieram as vontades de derrubar os vagões, fazê-los descarrilar, ver os trens colidirem e as linhas se entortarem? Na impotência de não conseguir detê-los com as mãos, tal qual era minha vontade, passei a deixar pedras sobre os trilhos, na esperança de que o trem pudesse saltar ao passar sobre elas e, enfim, tombar no chão. Eu observava a armadilha infantil falhando perpetuamente. Suspeitei que a linha não só conduzia o trem, mas também o protegia, a ponto de se lançar sobre o rio com força suficiente para erguer todo o interminável comboio, sustentando sua passagem. Forças que não fossem de mil homens, não a afetaria. Conheci também os destinos de quem se esquecia em seu caminho, cruzando suas pernas com o fio de corte dos trilhos – muitas delas ficavam por lá, frente à minha casa, para serem recolhidas quando a ajuda chegasse. Em visitas, as via mais de perto, adultos e crianças, mutilados nas linhas do trem. Meu olhar sobre elas, as linhas, ficou mais grave, mas não sem ternura, que criança não faz inimigos de verdade. Mais uma vez distante, eu simplesmente observava (minha sina maior, como se vê) o rio férreo dos trilhos correm sempre à frente de todas as coisas, de nós e do tempo, e do próprio vagão – descoberta essa que seria atualizada a cada primavera, no passeio anual que fazíamos até estações abandonadas. Descobri que há meios de mudar os trens de linha, que parar um gigante em movimento é mais difícil do que eu pensava e que, por vezes, eles descarrilavam ou se colidiam como eu gostaria de ver. Já os trilhos, dificilmente se moviam. De já, concluí odiar imutabilidades. Quanto a mim, como me encaixar com aqueles pés tortos nas linhas que seguiam tão uniformes, tão disciplinadamente, tão imprevisivelmente previsíveis, dormente após dormente? Aquilo não era pra mim, eu soube, mas também sei, ainda que de pés tortos e linhas rígidas, o que é estar sobre a linha – caminho seguro – e o que é estar fora dela.
sábado, 14 de junho de 2008
O milagre da vida
O milagre da vida se dá – e quem garante? Repousa em cada placa de vidro, em cada obra de cerâmica, no fino caule de cada flor, a possibilidade da fratura, a alternativa da ruína, a destruição da sua frágil materialidade. A existência pressupõe a extinção. Os números, no entanto, quem os sabe? Se estão escritos invisíveis dentro de nós, se estão gravados no pergaminho do destino ou se são impronunciáveis, tanto faz: apenas o momento sabe quando deve agir. Nosso fim está colado na nossa pele e nós o alimentamos à base de rotina e de vícios, e ele amadurece com o circular dos dias. Chegam à Terra como exércitos descendo dos céus ou frutos despencando das árvores - muitos sadios, outros podres – os filhos do homem. Uns nascem prontos para serem devorados pela boca caudalosa e sedenta do mundo, dentes grandes e lubrificados, incisivos de navalha e molares gigantes, outros já nascem corrompidos, quase colheita perdida: mesmo a foice os nega. Nascem podres, com a cor da chaga tingindo a pele, sentem a dor da realidade, o ar grava manchas na epiderme, e logo têm o cordão cortado e são levados à urna transparente – sua companhia nos primeiros dias. Levam para sempre nos olhos a fumaça desses dias iniciais e aprendem (como poderia ser?) a enxergar, com seus olhos de fumaça, através da névoa azul e preta que lhes cobre o caminho. Vêem, descortinando a neblina um mundo feito de agulhas, comprimidos, estetoscópios, ataduras, taquicardia, macas, nebulizadores, pupilas dilatadas, corpo trêmulo, reações adversas, boca seca, duas estacas atravessando do peito às costas. Da boca, exala a fumaça feito borboleta, e a fumaça toma todo o seu mundo. Tonteira, sonolência. Mas um pouco de serenidade, calmaria comprada com drogas. Povoam suas cabeças, lentamente, vozes que falam por eles, hasteando perguntas: por que é que eu tenho isso? o que foi que eu fiz? vai passar? eu vou morrer? deus gosta de mim? se a vida fosse boa, a gente não nascia chorando. Toma um desses nas mãos e examina: dopado, corroído, com o corpo carregado de ites, oses e ias, como um anjo em coma ele dorme seu santo sono – vence mais um dia. Está talhado nos passos da dança da fumaça o seu destino, talhado o seu número, convocado sem atraso. A fumegante criatura sobrevive e se pergunta se acaso não é a vida a real enfermidade. Em meio a névoa, ele ouve dizerem: nasceu - e compreende: contraiu vida.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Da beira do rio
No ano em que eu nasci, ele se estendeu e foi até a porta da minha casa molhar a escada. Essa classe de seres, nós os temos por muito silenciosos, por mais escandalosos que sejam - e são - e não ouvimos senão o seu tímido chiar, enquanto na verdade eles rebentam com violência. Sei que desde sempre eu tenho ouvido, dentro da minha cabeça, o ressoar de histórias que ninguém me contou, e que se arrastam na parede interna do crânio, com seus nomes esquecidos e datas rasuradas. Contam de um dos pilares que sustentavam o céu, um pilar cujas extremidades nunca podíamos ver ao mesmo tempo, e era desconhecida a quantidade de homens necessária para dar uma volta ao seu redor. Um pilar solitário, solando seu trabalho de Atlas frente a um relógio sem ponteiros, ignorando as dimensões do tempo. Parecia, de fato, o braço de um deus sustentando a abóboda. Certa vez, porém, como num suspiro, esse braço relaxou e escorreu, pousando no campo seu corpo de serpente, mole e leve. Despertou de um sono tranqüilo, percebeu sua condição e passou a perseguir obstinadamente seu horizonte, seu poente, seu fim – que nunca alcançava, mesmo esticando os dedos. Foi assim que escorreu pousado no leito, em seu sono milenar, cortando o relevo acidentado das terras ancestrais, bombeando vida terra adentro e fazendo nascer suas extensões, o que conhecemos por plantas e animais, mesmo parecendo ao resto do mundo que estava, na verdade, morto. O tempo correu, ente veloz, fazendo com que tudo que brota se esticasse ao céu, espalhando pó, imprimindo à vida um caráter de círculo e talhando nos rostos riscos de sua passagem. Em suposto silêncio, o rio sentia na fina superfície de sua pele, a passagem do seu célere irmão, a tocar com os pés ligeiros sua camada mais fina. E em suas margens, se depositavam os produtos que o tempo fecundava, em pilhas. Os pés, que iam à ele buscar força para perpetuar a vida, iam até ele para se banharem na sua eternidade, agora iam apenas para regurgitar no seu rosto os podres, as sobras da sua espiral decadente. Até que pararam de ir visitar ancestral, pois aprenderam a facilidade de simplesmente enfiar tubos diversos em suas veias, em sua espinha, em seu sistema nervoso, para melhor drená-lo no conforto de suas aglomerações e despejar furiosamente de volta no seu corpo caudaloso as entranhas, os constituintes da civilização. O rio ficou à margem, esquecido, como um mendigo. Criam-se em seu corpo a flora e a fauna modernas – os peixes dejetos, os bichos sucatas, as flores cadáveres. Passa-se sem notá-lo, no frenesi cotidiano, ignorando-o. E podem ouvir o rio somente os que nascem com seu som na cabeça, escalando os tímpanos. Ao seu lado, se pôs certa vez uma casa, a casa, a casa de portas, janelas e teto grandes, por onde o vento soprava à vontade, sem precisar pedir passagem. A casa feita de frente pro rio, sua primeira visão ao despertar, e a última ao adormecer. A única casa próxima ao esquecido ancestral. E foi até ela que ele resolveu subir, quando chegou a notícia da vinda de um bebê. Nada disso se esconde, pode ser lido tranquilamente no emaranhado do chiar tímido do rio, que emprestou suas margens à minha infância. E reconheci sua voz em minha cabeça quando pisei descalço ao seu redor, e eu o encarava de cima da ponte, de onde quase me deixaram cair quando bebê, de todos os lados, de onde eu gostava de deixar meus olhos boiarem nas águas, até a vertigem. O rio, ele não tem raiva, nem rancor, nem solidão. Promete somente continuar bombeando a si mesmo na carne da terra, até que sua força termine, e, humilde, não espera ser salvo.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
A gota azul
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Álbum
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Página em branco (ou isso)
Um gole de petróleo, que é a bebida da moda. Mas, claro, com um pedaço de madeleine, que é o que dá a viagem. Peço aqui a licença - que eu sei que será me dada - para ir sozinho, e prometo que mando notícias desses lugares que já não podem mais ser visitados. Isso para quem quiser ficar. A porta é logo ali. Não tenho intenção de fazer arte de espécie alguma, nem poética, nem visual, pois para isso me falta a veia, o coração, o pó de pirlim-pim-pim. Meu interesse é puramente nostálgico, retrospectivo. Somente tomo a liberdade de não ser objetivo - pois isso eu sei fazer. É que é para estender nesse varal os achados e perdidos dos meus escombros. Isso é apenas uma experiência, sem demais pretensões, sem leis, sem contornos, sem futuro imaginado, sem querer provar nada para ninguém. Pode ser, a qualquer momento, alterado de qualquer maneira, reformulado ou deletado. Pretendo, portanto, violar tudo o que foi dito acima, e anunciar, desde já, o fim disso tudo. O fim é o que mais temos em comum com a vida. Isso é efêmero, é volátil e vai sumir, mímese do cotidiano, destino, transitório permanecer. Míngua, o relato do que se foi. Feitas as devidas considerações, eu me sirvo, com a devida licença.
